Ilustração: Softtek no metaverso: o campus virtual no Virbela e o que restou dele

Softtek no metaverso: o campus virtual no Virbela e o que restou dele

Artigo publicado originalmente no Channel360 em 22 de fevereiro de 2022. Revisado em 2026.

No auge do interesse pelo metaverso, a Softtek, multinacional mexicana de serviços de TI com forte presença no Brasil, informou que usava havia um ano a plataforma de realidade virtual Virbela como espaço de comunicação interna, com mais de 6 mil usuários. O caso é um bom registro de como as empresas tentaram resolver a integração de equipes remotas durante a pandemia e do que aconteceu com essa aposta quando o entusiasmo passou.

O contexto de 2022

Em outubro de 2021, o Facebook mudou seu nome para Meta e colocou o termo “metaverso” no centro do debate tecnológico. Consultorias e bancos publicaram projeções agressivas; o comunicado original da Softtek citava uma estimativa da Bloomberg Intelligence de que a oportunidade de mercado poderia chegar a US$ 800 bilhões até 2024. Ao mesmo tempo, dois anos de trabalho remoto haviam deixado equipes dispersas, e departamentos de recursos humanos procuravam formas de manter a sensação de pertencimento sem escritório físico.

Foi nesse cenário que a Softtek divulgou sua experiência. A empresa dizia ter cerca de 15 mil funcionários em vários países e apresentava a plataforma como uma das primeiras adoções do tipo no Brasil.

O que a Softtek implantou

A plataforma escolhida foi a Virbela, um ambiente 3D acessado por aplicativo de desktop, no qual cada pessoa circula com um avatar, conversa por voz com quem está por perto e participa de reuniões em salas virtuais. Segundo o comunicado, o campus da Softtek contava com cerca de 60 espaços, entre escritórios, auditórios, teatro, praia e quadras de futebol, era totalmente personalizado e permitia níveis de acesso diferentes por colaborador. Em fevereiro de 2022, a empresa relatava mais de 6 mil usuários e a intenção de estender o acesso a todos os funcionários.

Os usos descritos eram três:

  • Eventos institucionais, com destaque para a “Galatea sem Fronteiras”, imersão cultural de dois dias baseada no programa de cultura organizacional da empresa. A própria Virbela citou a Galatea, em dezembro de 2021, como exemplo de onboarding realizado em seu ambiente.
  • Encontros informais e lazer, como torneios de futebol virtual entre equipes.
  • Colaboração entre países, reunindo pessoas do Brasil, do México, da Espanha e da Índia em um mesmo auditório.

Luis Revilla, então Chief People Officer da Softtek, resumiu a motivação no comunicado original: “O metaverso poderia ser a resposta à pergunta: como manter o sentimento de pertença e interação social em um mundo virtual?”

O que esse tipo de plataforma resolvia e o que não resolvia

Ambientes como o Virbela tinham uma vantagem real sobre videochamadas: a noção de presença espacial. É possível “esbarrar” em um colega, formar grupos espontâneos e alternar entre conversas sem agendar reuniões, algo que reproduz parte da dinâmica de um escritório. Para eventos de integração com centenas de pessoas, o formato também é mais envolvente do que uma transmissão unidirecional.

As limitações, porém, eram conhecidas desde o início. A plataforma exigia instalação de um aplicativo e hardware razoável; a navegação por avatar consome mais atenção do que um chat; e a adoção depende de massa crítica, porque um campus vazio não gera encontros. Em uma multinacional que reúne falantes de português, espanhol e inglês, o idioma continua sendo uma barreira que o espaço 3D não elimina, embora ferramentas de tradução por IA tenham avançado bastante desde então, como mostra nosso artigo sobre ChatGPT e idiomas.

O que mudou até 2026

O mercado se moveu na direção oposta à das projeções de 2022. A Virbela pertencia à eXp World Holdings, controladora da imobiliária eXp Realty, sua maior usuária. Em 29 de novembro de 2024, a eXp vendeu os ativos da Virbela, incluindo a propriedade intelectual, a uma empresa dos fundadores Alex Howland e Erik Hill. A própria eXp justificou a decisão dizendo que seus agentes passaram a preferir “plataformas acessíveis pela web e soluções baseadas em IA” a aplicativos instaláveis, e migrou seu campus virtual para uma solução em navegador (FrameVR). A Virbela continua existindo como empresa independente, mas em escala bem menor do que a imaginada no período de alta.

Quanto à Softtek, o comunicado de 2022 permanece listado na seção de cobertura de imprensa da empresa, mas não localizamos informações públicas posteriores sobre a continuidade do uso do Virbela, o número atual de usuários ou uma eventual substituição da plataforma. Até onde apuramos, não há dados mais recentes. A tendência geral nas grandes empresas de serviços de TI foi consolidar a comunicação interna em ferramentas como Microsoft Teams, Slack e Zoom, complementadas por assistentes de IA, e reservar experiências imersivas a eventos pontuais.

A lição prática do caso é menos sobre tecnologia e mais sobre o problema que ela tentava resolver: integrar equipes distribuídas continua sendo um desafio de gestão de pessoas, e a resposta de 2022 mostrou que a ferramenta precisa ser mais leve do que o hábito que pretende substituir.

Fontes

Nota de revisão (2026): texto original (release da Softtek) reescrito como artigo explicativo e ampliado; fatos verificados em 16 de setembro de 2026; números de usuários e funcionários mantidos como informações da empresa em 2022; acrescentado o destino da Virbela após 2024.


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Autor

Martin Wipf cuida do conteúdo do chat.com.br para a Gull AG em Zug (Suíça). Ele revisa cada artigo antes da publicação. Como criamos nosso conteúdo