Ilustração: IA na auditoria interna: o seminário do IIA Brasil de 2019

IA na auditoria interna: o seminário do IIA Brasil de 2019

Artigo publicado originalmente no Channel360 em 31 de maio de 2019. Revisado em 2026.

Em junho de 2019, o Instituto dos Auditores Internos do Brasil (IIA Brasil) promoveu em São Paulo um seminário sobre o uso de inteligência artificial na auditoria interna, com participação de KPMG e Magazine Luiza. O evento capturou um momento em que a IA na auditoria significava sobretudo análise de dados e automação de testes, antes da chegada dos modelos generativos. Este artigo registra o que foi debatido e o que a profissão fez com o tema desde então.

O evento

O seminário “O mundo da inteligência artificial na Auditoria Interna” foi realizado em 6 de junho de 2019, das 9h às 12h10, no Hotel Tryp Paulista, em São Paulo. A organização era do IIA Brasil, o capítulo brasileiro do The Institute of Internal Auditors, entidade que define os padrões internacionais da profissão.

Dois convidados externos foram anunciados: Ricardo Santana, sócio da KPMG, e Paulo Castro, diretor de auditoria do Magazine Luiza, que apresentaria resultados obtidos com IA nos processos da varejista. Diretores do IIA Brasil completariam o painel com um panorama da aplicação dessas ferramentas no país e em mercados como Estados Unidos e União Europeia.

O tema seguiu para Belo Horizonte em 25 de junho de 2019, com executivos da EY e da Braskem, e foi um dos destaques do 39º Conbrai, o Congresso Brasileiro de Auditoria Interna, realizado de 15 a 17 de setembro de 2019 em Florianópolis, com o tema “Tecnologia e inovação para a auditoria interna” e público estimado em mais de 800 profissionais, segundo a divulgação da época.

O que se entendia por “IA na auditoria” em 2019

A chamada do evento colocava a inteligência artificial como ferramenta de combate a fraudes corporativas e de ampliação da transparência e da governança. Paulo Gomes, então diretor-geral do IIA Brasil, resumiu a expectativa no comunicado original: a IA “contribui para detectar irregularidades de forma automática, permitindo que o auditor use sua expertise para imprimir uma visão holística da empresa, obtendo amplo conhecimento de ameaças de fraudes e podendo apoiar a alta administração na tomada de decisões”.

Na prática, o que se apresentava sob esse rótulo em 2019 eram principalmente três famílias de técnicas:

  • Análise de dados em população completa. Em vez de testar amostras, o auditor cruza 100% das transações de um período em busca de exceções: pagamentos duplicados, fornecedores com dados cadastrais de funcionários, lançamentos fora do horário comercial.
  • Modelos de detecção de anomalias. Algoritmos estatísticos ou de aprendizado de máquina que aprendem o padrão “normal” de um processo e apontam desvios, úteis para fraudes em despesas, notas fiscais e concessão de crédito.
  • Automação robótica de processos (RPA). Robôs de software que executam tarefas repetitivas, como coletar evidências em sistemas e preencher papéis de trabalho. O comunicado original falava em “uso de robótica na avaliação de informações”.

Não localizamos registro público das apresentações ou dos resultados específicos mostrados no seminário, incluindo os do Magazine Luiza. O que se sabe é o que constava na divulgação prévia.

Por que o tema importava (e ainda importa)

A auditoria interna tem uma restrição estrutural: equipes pequenas diante de volumes crescentes de transações. A análise de dados resolve parte disso ao permitir cobertura total em vez de amostragem. Mas o debate de 2019 já trazia as perguntas que continuam abertas: como auditar um algoritmo que a própria empresa usa para tomar decisões? Como documentar evidências geradas por um modelo? Como evitar que a ferramenta gere tantos falsos positivos que a equipe deixe de olhar os alertas?

O ponto defendido pelo IIA Brasil na época, de que a tecnologia libera o auditor para o julgamento profissional em vez de substituí-lo, permanece a posição predominante da profissão.

O que mudou até 2026

Duas mudanças concretas marcaram o período.

A primeira foi a chegada da IA generativa a partir do fim de 2022. Ferramentas como o ChatGPT passaram a ser usadas por auditores para resumir normas, redigir relatórios, gerar scripts de análise e preparar entrevistas. Para quem quer entender o que esses sistemas fazem e onde erram, vale ler como o ChatGPT funciona; a distinção entre um modelo que gera texto plausível e um sistema que verifica fatos é essencial para o trabalho de auditoria, que depende de evidência.

A segunda foi normativa. O The IIA publicou em janeiro de 2024 as novas Global Internal Audit Standards, em vigor desde 9 de janeiro de 2025, que substituíram o conjunto de normas anterior e reforçaram temas como estratégia da função de auditoria e uso de tecnologia. Em paralelo, o instituto atualizou em setembro de 2024 o seu Artificial Intelligence Auditing Framework, um guia para auditores que precisam avaliar governança, riscos e controles de sistemas de IA, alinhado a referências como o AI Risk Management Framework do NIST e contemplando o uso de grandes modelos de linguagem.

Ou seja, a IA deixou de ser apenas uma ferramenta do auditor e passou a ser também um objeto de auditoria. Até onde apuramos, não há informações públicas mais recentes sobre a continuidade específica dessa série de seminários do IIA Brasil; o Conbrai, porém, segue sendo realizado anualmente pelo instituto.

Fontes

Nota de revisão (2026): texto original (divulgação de evento) reescrito como artigo explicativo e ampliado; fatos verificados em 16 de setembro de 2026; citação de Paulo Gomes mantida conforme o original; acrescentados contexto técnico e as mudanças normativas do The IIA (2024–2025).


INK7dU7Dui

Autor

Martin Wipf cuida do conteúdo do chat.com.br para a Gull AG em Zug (Suíça). Ele revisa cada artigo antes da publicação. Como criamos nosso conteúdo