Artigo publicado originalmente no Channel360 em 10 de março de 2020. Revisado em 2026.
Em março de 2020, o BTG Pactual anunciou as oito startups da quinta edição do boostLAB, seu programa de potencialização de scale-ups. Entre elas estava a Noverde, fintech de crédito que usava inteligência artificial e dados de comportamento digital para avaliar clientes fora dos modelos tradicionais. Este artigo, citado como fonte na Wikipédia sobre o BTG Pactual, registra os fatos daquela edição e o que aconteceu depois com o programa e com a fintech.
O boostLAB e a quinta edição
O boostLAB é o programa do BTG Pactual, banco de investimentos brasileiro com sede em São Paulo e no Rio de Janeiro, voltado a startups em estágio avançado, as chamadas scale-ups. Diferentemente de aceleradoras para empresas iniciantes, o programa busca negócios com produto pronto, tração e receita recorrente, e oferece conexão com o banco, rede de contatos e mentoria de sócios e executivos. Segundo o BTG, a iniciativa foi criada em 2018.
A quinta edição foi lançada em março de 2020, semanas antes de a pandemia alterar a rotina do mercado. Os números divulgados na época:
- 335 empresas em fase de scale-up se inscreveram, recorde até então.
- 8 vagas foram oferecidas.
- Critérios de seleção: potencial de crescimento em escala, eficiência operacional, relacionamento com o cliente e capacidade de disrupção.
- Parceira na operação: a ACE, empresa de inovação que conduzia as mentorias ao lado de sócios e executivos do banco.
- Duração: até julho de 2020.
As oito selecionadas foram Noverde, ahgora, Airfluencers, Celcoin, Conciliadora, Dootax, LinkApi e Refinadora de Dados. A lista coincide com a coluna “5ª edição” da tabela de scale-ups potencializadas no verbete do BTG Pactual na Wikipédia em português, que cita este artigo como referência.
Noverde: crédito com IA e dados do smartphone
A Noverde foi fundada em 2016 por Eduardo Teixeira. Seu produto era um aplicativo de empréstimo pessoal cujo diferencial estava na análise de crédito: além dos dados cadastrais e de birôs tradicionais, a empresa combinava inteligência artificial e ciência de dados para incorporar sinais digitais do próprio usuário, como padrões de uso do smartphone e aplicativos instalados, sempre com autorização do cliente.
A lógica por trás disso é conhecida como credit scoring alternativo. Modelos de aprendizado de máquina são treinados com histórico de pagamento e centenas de variáveis comportamentais para estimar a probabilidade de inadimplência. Para pessoas sem histórico bancário relevante, os chamados “invisíveis” para o crédito, esses sinais alternativos podem ser a única forma de obter uma avaliação. Em 2020, a Noverde afirmava que seu aplicativo já tinha mais de 1,5 milhão de downloads, era membro da Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD) e havia recebido investimento da gestora DOMO Invest. Esses dados são do comunicado da época e não foram verificados de forma independente.
O público-alvo era claro. A pesquisa “A nova fronteira do crédito no Brasil”, realizada pela PwC com a ABCD em 2019 a partir de 43 fintechs de crédito, apontou que 79% dos clientes dessas fintechs pertenciam às classes C (39%), D (29%) e E (11%). Era justamente a fatia mal atendida pelos modelos de crédito convencionais, descritos no texto original como “burocráticos e excludentes”.
Por que o BTG apostava em scale-ups
A estratégia do BTG com o boostLAB ia além da mentoria. O banco queria se aproximar das startups na origem para oferecer serviços como câmbio e crédito e, nas rodadas seguintes, investir diretamente em algumas delas ou assessorá-las em fusões, aquisições e aberturas de capital. Em 2020, o banco informava que mais de 70% das participantes das cinco primeiras edições haviam feito algum negócio com o grupo. Para as startups, o atrativo era o acesso a um grande banco como cliente, parceiro ou investidor, mais do que o capital em si, que nas primeiras edições não era parte central do programa.
O que mudou até 2026
Noverde. Em 4 de abril de 2022, a Dotz, empresa de programa de fidelidade listada na B3, confirmou a compra da Noverde por R$ 49 milhões, em operação escalonada: R$ 35,7 milhões pelos primeiros 49,9% do capital e o restante por incorporação de ações, com parcela contingente a metas. Na época, a Noverde havia migrado para um modelo B2B2C, oferecendo infraestrutura de crédito e cobrança por meio de parceiros, e informava ter atendido mais de 200 mil clientes. O fundador Eduardo Teixeira permaneceu na operação após a venda. Até onde apuramos, não há informações públicas mais recentes sobre a marca Noverde de forma separada da Dotz.
boostLAB. O programa continuou e mudou de formato. Em 2023, chegou a 11 edições e 82 startups potencializadas, das quais cerca de 70% fizeram negócios com o BTG; naquela edição, todas as selecionadas receberam investimento de até R$ 1,5 milhão. Em dezembro de 2024, ao abrir as inscrições para a turma de 2025, o banco informou 12 edições concluídas, mais de 80 startups aceleradas e investimento direto em 18 delas; a nova edição passou a ter a Endeavor como parceira na seleção e na operação, com até seis startups selecionadas e aporte inicial de R$ 1 milhão, podendo chegar a R$ 2 milhões. A revista Global Finance incluiu o boostLAB entre os melhores laboratórios de inovação financeira do mundo em anos consecutivos, de 2020 a 2024.
O mercado. O uso de inteligência artificial em análise de crédito, que em 2020 era o diferencial de uma fintech selecionada, tornou-se prática comum entre bancos e fintechs brasileiros. Uma explicação acessível de como modelos de linguagem e de aprendizado de máquina chegam a suas respostas está em como o ChatGPT funciona; a lógica estatística por trás de um modelo de crédito é diferente, mas o princípio de aprender padrões a partir de dados é o mesmo.
Fontes
- Channel360: Fintech que usa inteligência artificial para crédito é selecionada no boostLAB do BTG Pactual (2020)
- Wikipédia: BTG Pactual (seção boostLAB)
- ABC da Comunicação: Noverde é selecionada no programa boostLAB do BTG Pactual (2020)
- Pesquisa ABCD/PwC Fintechs de Crédito 2019: A nova fronteira do crédito no Brasil
- NeoFeed: Dotz confirma compra de fintech de crédito Noverde por R$ 49 milhões (04/04/2022)
- Startups.com.br: BTG seleciona 6 startups para receber aporte de até R$ 2M (12/12/2024)
- Exame: Veja as 8 startups selecionadas pelo BTG para o programa do boostLAB (08/2020)
Nota de revisão (2026): texto original reescrito e ampliado; fatos verificados em 16 de setembro de 2026; lista de startups e números da 5ª edição conferidos com o verbete da Wikipédia e com a cobertura da época; acrescentados a aquisição da Noverde pela Dotz (2022) e a evolução do boostLAB até a turma de 2025.

