Ilustração: Legaltechs no Brasil: o crescimento de 300% e o que veio depois

Legaltechs no Brasil: o crescimento de 300% e o que veio depois

Artigo publicado originalmente no Channel360 em 18 de novembro de 2019. Revisado em 2026.

Em 2019, a Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs (AB2L) contabilizava quase 150 startups jurídicas no país, um crescimento de cerca de 300% desde 2017. Este artigo explica o que são legaltechs, de onde veio esse número, que problema essas empresas tentavam resolver e como o setor evoluiu até 2026, quando a própria associação passou a reunir mais de mil membros.

O dado: 300% de crescimento em dois anos

O número que deu título ao artigo original vem da AB2L, associação fundada em 2017 que mapeia o ecossistema de tecnologia jurídica no Brasil. Segundo a entidade, entre 2017 e o fim de 2019 o número de startups do segmento cresceu cerca de 300%, chegando a quase 150 empresas. A base de comparação era pequena, por isso o percentual é alto; o dado indica um setor que estava se formando, não um mercado já consolidado.

Esse dado passou a circular de forma independente do artigo. Em novembro de 2022, comunicados sobre o evento Law Experience, da AB2L, repetiam que “desde 2017, houve um crescimento de 300% das startups de segmento jurídico no Brasil”, e um estudo acadêmico apresentado no Encontro Nacional de Inteligência Artificial e Computacional (ENIAC) de 2021, sobre reconhecimento de entidades nomeadas em petições em português, citou o texto original como referência para a expansão das legaltechs. Vale registrar a limitação: o percentual foi divulgado pela associação do setor, sem metodologia pública detalhada.

O que são lawtechs e legaltechs

Os dois termos costumam ser usados como sinônimos no Brasil, e a própria AB2L adota ambos. Em linhas gerais, são empresas que desenvolvem software para o mercado jurídico. As categorias mais comuns:

  • Gestão de escritórios e processos: controle de prazos, andamentos, clientes e honorários.
  • Automação de documentos: geração de contratos e petições a partir de modelos e dados do cliente.
  • Cálculos especializados: trabalhistas, previdenciários, tributários.
  • Pesquisa e jurimetria: busca de jurisprudência e análise estatística de decisões.
  • Resolução de conflitos online e plataformas de negociação.
  • Assinatura eletrônica e gestão de contratos.

O problema que elas atacam

O artigo original citava o relatório Justiça em Números, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com cerca de 80 milhões de processos em tramitação. O volume continua nessa ordem de grandeza: a edição de 2025 do relatório, com dados de 2024, aponta 80,6 milhões de processos pendentes ao fim daquele ano, com 44,6 milhões de processos julgados em 2024. Num sistema desse tamanho, qualquer ganho de produtividade por advogado ou por vara tem efeito relevante.

Do lado dos escritórios, a rotina em 2019 ainda era em boa parte manual: petições redigidas do zero, cálculos feitos em planilhas, documentos do cliente organizados em pastas físicas. Ao mesmo tempo, os tribunais já haviam migrado, ou estavam migrando, para o processo eletrônico, o que criou uma assimetria: o Judiciário digital recebendo peças produzidas de forma analógica.

Um exemplo concreto: o Previdenciarista

O texto de 2019 usava como exemplo o Previdenciarista, plataforma voltada a advogados da área previdenciária, que na época informava cerca de 9 mil usuários. O funcionamento ilustra bem a proposta das legaltechs: o advogado envia o Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS) do cliente, documento do INSS com o histórico contributivo; a ferramenta calcula os benefícios possíveis, indica a aposentadoria mais vantajosa e entrega petições pré-preenchidas para o caso. O sistema também gera procuração e contrato de honorários e armazena os documentos na nuvem.

Renan Oliveira, cofundador da empresa, resumia o objetivo no artigo original: “utilizar a tecnologia para colocar à disposição do advogado conteúdos e ferramentas que otimizem o tempo gasto em tarefas rotineiras, como a redação de petições e elaboração de cálculos previdenciários com segurança” (citação do texto original). A plataforma segue ativa em 2026 e, segundo o próprio site, passou a oferecer um assistente baseado em inteligência artificial para discutir casos; não localizamos números atualizados de usuários.

Da automação à inteligência artificial

Em 2019, o artigo mencionava que alguns tribunais “já caminham até para o uso de inteligência artificial”. Isso se concretizou em duas frentes. Na pesquisa, trabalhos como o estudo do ENIAC 2021 treinaram redes neurais para identificar automaticamente pessoas, órgãos, valores e datas em petições iniciais escritas em português, uma tarefa que depende de modelos que entendam bem a língua, tema tratado em ChatGPT e idiomas. Na prática institucional, o CNJ editou a Resolução nº 615, de 11 de março de 2025, que substituiu a Resolução 332/2020 e passou a regular o desenvolvimento, o uso e a governança de soluções de IA no Judiciário, com classificação de risco, exigência de supervisão humana e um Comitê Nacional de Inteligência Artificial.

Para os escritórios, a chegada dos modelos de linguagem generativos a partir de 2023 mudou a natureza das ferramentas: além de preencher modelos, os sistemas passaram a redigir minutas, resumir autos e responder perguntas sobre processos. Isso trouxe também os primeiros episódios de citações de jurisprudência inexistente geradas por IA, o que reforça a necessidade de revisão humana.

O que mudou até 2026

A AB2L, que nasceu em 2017 com cerca de 20 associadas, informa ter ultrapassado mil membros, entre startups, escritórios, departamentos jurídicos, universidades e órgãos públicos. A quarta edição do seu evento Lawtech Experience, em agosto de 2025, em São Paulo, reuniu segundo a organização mais de seis mil participantes. Na cobertura do evento, a associação afirmou que o mercado jurídico brasileiro movimentou cerca de R$ 2 bilhões em investimentos nos 18 meses anteriores, com operações como a compra da LegalLabs pela Neoway e da D4Sign pela italiana Zucchetti. Não localizamos uma contagem atualizada e pública do número de startups comparável à de 2019, o que impede recalcular o percentual de crescimento; os dados acima são declarações da própria associação.

Fontes

Nota de revisão (2026): texto original reescrito e ampliado; fatos verificados em 16 de setembro de 2026; adicionados contexto do dado de 300%, categorias de legaltechs, dados atualizados do CNJ e da AB2L e a regulação de IA no Judiciário.


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Martin Wipf cuida do conteúdo do chat.com.br para a Gull AG em Zug (Suíça). Ele revisa cada artigo antes da publicação. Como criamos nosso conteúdo