Artigo publicado originalmente no Channel360 em 23 de fevereiro de 2024. Revisado em 2026.
Desde 1987, quando o SQL foi ratificado, a ISO não havia publicado nenhuma nova linguagem de banco de dados. Isso mudou em 2024 com o GQL (Graph Query Language), padrão internacional para consultar e manipular grafos de propriedades. Este artigo explica o que é o GQL, de onde ele veio, como se relaciona com o Cypher da Neo4j e com o SQL, e por que ele importa para quem trabalha com dados conectados.
O que é o GQL
GQL é uma linguagem declarativa para bancos de dados de grafos de propriedades, o modelo em que os dados são representados como nós (entidades) e relacionamentos (arestas), ambos podendo carregar atributos. Em vez de descrever tabelas e junções, quem consulta descreve padrões: um cliente que fez um pagamento para uma conta que pertence a outra pessoa, por exemplo. A sintaxe herda a notação visual popularizada pelo Cypher, com nós entre parênteses e relacionamentos entre colchetes, algo como MATCH (c:Cliente)-[:PAGOU]->(conta:Conta).
O documento oficial é o ISO/IEC 39075:2024, elaborado pelo grupo de trabalho WG3 (linguagens de banco de dados) do subcomitê SC32 do comitê técnico conjunto ISO/IEC JTC 1, o mesmo fórum responsável pelo SQL. Segundo a Neo4j, o texto final passa de 600 páginas de definições formais e referencia mais de 400 documentos técnicos.
De onde veio: uma década de convergência
O GQL não nasceu do zero. A Wikipedia e o blog da Neo4j reconstituem o caminho: em julho de 2016 a Neo4j apresentou a outros fornecedores uma proposta privada de linguagem comum; no mesmo ano, engenheiros da Oracle levaram uma proposta semelhante ao processo da ISO/IEC. Em 2018 circulou o chamado GQL Manifesto, pedindo publicamente uma linguagem única para grafos, e em setembro de 2019 o JTC 1 aprovou o projeto formal. Participaram do trabalho organismos nacionais de normalização dos Estados Unidos, China, Coreia, Países Baixos, Reino Unido, Dinamarca e Suécia.
Três linguagens já existentes influenciaram diretamente o resultado: o Cypher (Neo4j e sua versão aberta openCypher), o PGQL (Oracle) e o G-CORE, um projeto acadêmico. A GSQL da TigerGraph também é citada entre as influências. Quando a matéria original foi publicada, em fevereiro de 2024, o padrão estava na reta final de aprovação; a publicação oficial pela ISO ocorreu em abril de 2024, e a Neo4j divulgou seu comunicado comemorativo em 17 de abril.
GQL e SQL: concorrentes ou complementares?
A resposta dos próprios autores do padrão é “complementares”. O SQL foi desenhado para dados relacionais; o GQL, para dados em forma de grafo. Um detalhe reforça a ponte entre os dois: a revisão SQL:2023 incluiu a parte 16, chamada SQL/PGQ (Property Graph Queries), que permite escrever consultas de padrões de grafo dentro de um SELECT usando uma notação muito parecida com a do GQL. Na prática, uma organização pode manter seu banco relacional e, ainda assim, fazer consultas de grafo sobre ele, ou adotar um banco de grafos nativo com GQL quando a estrutura dos dados pede.
Uma comparação simples ajuda a entender a diferença de abordagem:
| Aspecto | SQL (relacional) | GQL (grafos) |
|---|---|---|
| Modelo de dados | Tabelas, linhas e colunas | Nós, relacionamentos e propriedades |
| Relacionamentos | Chaves estrangeiras e JOINs | Elementos de primeira classe, com tipo e atributos |
| Consulta típica | Agregações e filtros sobre conjuntos | Busca de padrões e caminhos de tamanho variável |
| Padrão ISO | ISO/IEC 9075, desde 1987 | ISO/IEC 39075, desde 2024 |
Por que um padrão importa
Bancos de grafos já eram usados em detecção de fraude, motores de recomendação, gestão de identidades, cadeias de suprimento e grafos de conhecimento. O problema era a fragmentação: cada fornecedor tinha sua linguagem, o que dificultava a portabilidade de aplicações, a formação de profissionais e a interoperabilidade entre ferramentas. Um padrão ISO cria uma referência neutra, do mesmo modo que o SQL permitiu que conhecimento e código migrassem entre bancos relacionais de fabricantes diferentes.
Há ainda um motivo recente. Grafos de conhecimento passaram a ser combinados com modelos de linguagem em arquiteturas que a indústria chama de GraphRAG, nas quais o grafo fornece contexto estruturado e verificável para as respostas do modelo. Para quem quer entender o outro lado dessa combinação, vale ler como o ChatGPT funciona. Uma linguagem padronizada facilita construir e manter essa camada de dados conectados.
O que mudou até 2026
Após a publicação, a adoção começou pelos fornecedores mais próximos do processo. A Neo4j mantém em sua documentação oficial um apêndice de conformidade do Cypher com o GQL, listando o que já é compatível e onde ainda há diferenças. O Google Cloud lançou o Spanner Graph com suporte a consultas GQL, e implementações de pesquisa foram desenvolvidas em universidades, como a TU Eindhoven, segundo a Wikipedia. O site gqlstandards.org, mantido pela comunidade do padrão, reúne material de referência. Até onde apuramos, não há uma segunda edição publicada do ISO/IEC 39075; correções e extensões seguem o processo normal do WG3.
Fontes
- Channel360: matéria original (2024)
- Neo4j: Neo4j Welcomes New GQL International Standard (17 de abril de 2024)
- Neo4j: Creating the GQL database language standard
- Wikipedia: Graph Query Language
- GQL Standards (site da comunidade do padrão)
- Neo4j Cypher Manual: GQL conformance
- The New Stack: GQL, a New ISO Standard for Querying Graph Databases
Nota de revisão (2026): texto original reescrito e ampliado; fatos verificados em 16 de setembro de 2026 (data de publicação do ISO/IEC 39075:2024, histórico do projeto, relação com SQL/PGQ e estado da adoção); acrescentada tabela comparativa SQL x GQL.

